A ciência de Deus" ou "A espécie escolhida"
Noticiados os fatos ocorridos em laboratório da USP, mais uma vez apenas os cientistas favoráveis a experimentação animal tem espaço na imprensa.
Como forma de desagravo a todos que mais uma vez não têm voz, escrevo este simples texto na tentativa de demonstrar o que levou os ditos vândalos a cometerem os atos tão divulgados mídia afora, e o faço respondendo a carta enviada a um jornal do Rio de Janeiro pelo Sr. Dr. Octávio Menezes de Lima Junior, por perceber que ela reproduz os argumentos dos cientistas que lutam, infelizmente, pela manutenção da ordem estabelecida.
De início, é preciso
contextualizar o início das práticas vivisseccionistas, que estes cientistas
estagnados no tempo, metodológica e eticamente, insistem
Os séculos se passaram, o evolucionismo
ganhou força, foi aceito, teoricamente. Cada vez mais percebemos que o homem é
só mais um elemento dentro das forças da natureza, que não é destacado, não é
superior, é somente parte dela. Mas a ciência, no entanto, não consegue
abandonar seu paradigmas antropocêntricos, e um dos mais fortes é esse de
acreditar que os outros animais estão aqui para nos servir, para serem usados
pela espécie humana. Assim como homem pré-darwiniano, os cientistas
vivisseccionistas apóiam-se em ideal creacionista para justificar seus métodos
desprovidos de qualquer ética.
Eu não entendo por que propor
novos rumos, propor a evolução da ciência para fora do paradigma
antropocêntrico é ser obscurantista. Para mim, não aceitar mudanças no que está
instituído há séculos, temendo pelo novo é que é a própria imagem do
obscurantismo. Uma ciência que respeite indivíduos sencientes de outras
espécies, e aceite a não-superioridade humana na natureza (que tipo de
superioridade é essa, de uma espécie que destrói seu meio ambiente, tortura
outros indivíduos – de todas as espécies, inclusive a sua própria – e mata
pelos motivos mais fúteis imagináveis?) é qualquer coisa, menos obscurantista.
O Dr. pergunta se eu, leitor,
aceitaria servir de cobaia para testes. Eu respondo que não, que não aceitaria,
e sabe por quê? Porque meu corpo a mim pertence, e eu posso escolher se quero
ser alvo de mutilações e inoculação de drogas ou não. Utilizar-se dos corpos de
animais sencientes, ainda vivos, como se a eles, experimentadores, pertencessem
é, no mínimo, antético. Achar que o corpo de outrem lhe pertence é a reprodução
do que acreditavam os senhores de escravos, os maridos ou os nazistas. Só porque
um indivíduo nasceu em outra espécie, seu corpo não lhe pertence, Doutor. Seguir
este preceito é dar cabo a uma lógica preconceituosa, especista, pela qual quem
não é do meu grupo (que, obviamente, é superior) está aqui para me servir, como
as mulheres estão aqui para servir aos homens, os negros aos brancos, os judeus
aos nazistas.
O porquê da comparação: sua idéia de superioridade humana é tão atemporal como todas as citadas anteriormente. Mas é compreensível, e digo isso de forma condescendente, que quem fez sua carreira baseada no paradigma do cientificismo antropocêntrico, não consiga enxergar a questão de maneira imparcial.
Não importa se há alternativa ou
não, se não é ético, não faça. Do que adianta curar uma doença, a qualquer
custo, se vamos viver num mundo imoral, onde amanhã mesmo o senhor pode ser
atacado pelos ditos “zooxiitas”. A lógica de quem ataca os cientistas, é a
mesma dos senhores Doutores: conseguir o quer pela força. Ou não é pelo uso da
força que V. Sa. subjuga os indivíduos de outras espécies? A única diferença que
vejo é que eles, os “zooxiitas”, os vândalos, usam a força contra coisas,
contra os instrumentos de tortura institucionalizados; já os senhores usam
contra indivíduos, contra seres sencientes com capacidade cognitiva altamente
desenvolvida, capazes de sentir e entenderem que estão sendo molestados.
Doutor, seu texto é um apanhado de contradições:
“Para eles, por exemplo, testar a
vacina Sabin em algumas dezenas de macacos não se justifica, mesmo tendo essa
vacina evitado que milhões de pessoas contraíssem pólio e ficassem aleijadas
pelo resto da vida. Se assim eles pensam, eu, humildemente, me reservo ao
direito de discordar”.
Pois bem, doutor, sem usar nenhum
argumento creacionista de superioridade e domínio humano, me explique, por
favor, por que testar uma vacina em algumas dezenas de macacos, de forma
obviamente não consentida, se justifica para salvar milhões de pessoas, e
testá-las em seres humanos, de maneira também não consentida, não se justifica,
ainda que sejam salvas as mesmas milhões de pessoas? A conta é a mesma, algumas
dezenas por milhões. Por falar em porões da ditadura, percebeu o quão perigoso
é este caminho, esta lógica? A ciência não deveria estar atrelada à ética? E,
antes da sua resposta, acho importante lembrá-lo que alguns indivíduos de
outras espécies, principalmente de primatas, mas também cetáceos e até mesmo
aves ou peixes, possuem o sistema cognitivo mais apurado que alguns indivíduos
da espécie humana, tendo a capacidade de sentir a tortura física e psicológica
pela qual estão passando de maneira muito mais intensa.
Resumindo, não são só “eles”,
“zooxiitas”, que acham que os testes não se justificam, mas sim todas as
pessoas que acreditam que o progresso da ciência só vale a pena se ocorrer de
maneira ética.
Sobre a Lei Arouca, é de grande
ignorância achar que ela representa algum avanço, pois mesmo dentro da lógica
predominante, ela está algumas décadas atrasada: ela não proíbe testes em
animais para cosméticos – o que já é proibido em todo o mundo civilizado -, ela
não proíbe o uso de animais no ensino – que já é proibido no Reino Unido e na
Alemanha há décadas, além de ter sido abolido voluntariamente da grande maioria
das instituições de Europa e Estados Unidos, por sua total irrelevância -, como ainda expande a possibilidade destes
testes para cursos técnicos de Segundo Grau, o que até então era proibido.
Em relação aos custos da
experimentação, não vou dizer que é mais barato ou mais caro fazer testes em
animais, pois não realizei e desconheço tal estudo, mas posso afirmar que TODAS
as universidades do país que não implantam alternativas ao uso de animais em
sala de aula usam como desculpa o alto custo das alternativas. Posso afirmar
também que, independentemente dos custos, há um status quo econômico a ser mantido na experimentação animal,
justamente por ser ela tão complexa, como relatado por V. Sa. – não se esqueça
que instituições são formadas por pessoas -: há os funcionários pagos para
limpar os biotérios, há as empresas que constroem as gaiolas, há as pessoas que
alimentam os bichinhos, há os pesquisadores que recebem suas bolsas de estudo –
muitas vezes para realizar pesquisas de relevância questionável -, há os
grandes patrocínios para as instituições se manterem e pagarem todos os seus
diretores. Portanto, é óbvio que há interesse econômico – ainda que não seja o
único – em manter as coisas como estão.
Por fim, imagine só, se entre os
discordantes das práticas vivisseccionistas há cientistas, e a estes não é
permitida qualquer voz no meio acadêmico, ou na imprensa, o que dizer de
pessoas “comuns”, que vêem toda essa violência ocorrer contra indivíduos
indefesos e percebem que nada está sendo feito para mudar esta realidade.
Talvez eles nem sequer entendam os argumentos éticos contrários à
experimentação não consentida em indivíduos sencientes, sejam eles humanos ou
não, mas sentem a grande injustiça que habita nesta ciência nefasta, que busca
seus fins sem se preocupar com os meios utilizados. Quando a violência é
institucionalizada é “mal necessário”, quando a força é usada para chamar a
atenção para os calabouços da ciência, atacando a ordem constituída, é
vandalismo?
Fui obrigado a deixar a sua
pérola mais antiética e obscurantista por último, a famosa justificativa do “animais,
criados especificamente para esse fim”.Os negros também eram criados na senzala
para serem escravos, e isso não tornava a escravidão menos abominável. Quantas
mulheres já não nascem com seu marido predeterminado, com seu futuro fadado a servi-lo.
Aliás, se eu tiver um filho com o fim específico de pegar seus órgãos para mim,
o senhor me defende com seus argumentos finalistas, Doutor? Que boa idéia, por que
não clonar bebês em laboratório para retirar seus órgãos para transplante, ou
testar novas drogas neles, afinal “eles terão nascido com essa finalidade
específica”. Meu Deus, Doutor Octávio, se assim posso chamá-lo, veja até onde
seu Vossas colocações nos trouxeram!
Uma espécie que quer ser salva por esses meios, não merece ser salva.
Carlos Ademir Bedin Cipro.
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