Robben Island, África do Sul - Este pedaço de terra, de apenas 1,6km de largura e 3,2km de comprimento, foi onde Nelson Mandela passou 18 dos seus 27 anos de prisão.
Agora venerado como Patrimônio Mundial da Humanidade, ele é uma das maiores atrações turísticas da África do Sul, com cerca de 1.200 pessoas embarcando na Cidade do Cabo diariamente em ferryboats que em 45 minutos os fazem voltar no tempo.
Um percurso de ônibus está incluído no passeio e muitas pessoas espiando pelas janelas observam coelhos saltando perto da estrada.
"Olha, um coelhinho", exclama um visitante.
E muitos outros acrescentam: "Olha outro ali! E ali!" Na verdade, esta ilha está cheia de coelhos, que se multiplicam na velocidade impressionante pela qual são conhecidos.
Eles cavam esconderijos em edifícios históricos e desnudam o local de plantas folhosas que evitam que o solo fique exposto a tempestades de poeira.
Para os administradores da ilha, os coelhos há muito tempo deixaram de ser peludinhos inocentes e são vistos, em vez disso, como pestes enlouquecedoras.
Diversas tentativas foram realizadas para controlar a população desses animais, mas todas as ideias falharam de uma forma ou de outra.
Agora, uma abordagem claramente direta começa a ter sucesso: atiradores saem à noite para abater os coelhos.
Houve relutância em apelar para as armas.
Com a soltura de Mandela, em 1990, a ilha se tornou símbolo do triunfo determinado do espírito humano.
De certa forma, a morte sangrenta de mamíferos pequeninos e de bigodinhos parecia inapropriada.
"Ninguém é a favor de sangue sendo derramado em Robben Island, mas a ilha tem uma capacidade finita, e com os coelhos cavando sob a base de edifícios de valor inestimável, que são Patrimônio Mundial da Humanidade, concordamos que algo devia ser feito", disse Allan Perrins, chefe da Sociedade para a Prevenção de Crueldade contra Animais da área.
Chris Wilke, um dos atiradores contratados, diz que numa noite calma e de temperatura agradável, ele consegue colocar num saco 25 animais por hora, incluindo o tempo que leva para descer de seu veículo e coletar os bichos mortos.
Desde meados de outubro, 5.300 coelhos foram mortos, junto com 78 veados e 38 felinos indesejados.
Wilke estima que ainda restem uns 8 mil coelhos a serem mortos.
Todas as noites, dois caçadores atravessam a ilha em suas bicicletas, apontando refletores para pequenos arbustos.
Os coelhos às vezes param para olhar a luz.
Os atiradores miram na cabeça dos bichos com rifles calibre 22.
"Não posso dizer que essa caçada é divertida, mas me sinto bem", disse Wilke numa noite recente.
O depósito de plástico de seu veículo estava quase todo cheio de carcaças.
"Este trabalho é de conservação.
Os coelhos não pertencem a este lugar.
Eles estão devastando a ilha".
Na verdade, ancestrais desses coelhos estavam aqui há 350 anos, provavelmente trazidos para a ilha por exploradores holandeses para servir de carne.
A espécie envolvida é o coelho europeu, considerado um intruso estrangeiro - e particularmente perigoso.
As fêmeas podem procriar a partir dos três meses de idade e capazes de parir oito filhotes seis vezes por ano.
Durante séculos, os coelhos de Robben Island foram caçados para servir de alimento ou como esporte, mantendo a população em níveis controlados.
Mesmo quando o local servia de prisão, guardas com rifles perseguiam os coelhos à noite.
No entanto, com o fechamento da prisão, a caçada acabou parando.
Como era de se prever, os coelhos transformaram a oportunidade no auge reprodutivo.
Pouco depois havia tantos coelhos - e tão pouca comida - que muitos pareciam estar famintos.
"Eles literalmente subiam nas árvores para comer qualquer coisa verde", disse Perrins.
As soluções para o problema exigiam uma sensibilidade à opinião pública.
Uma das primeiras propostas foi realocar os coelhos para o continente, uma ideia considerada especialmente idiota por autoridades governamentais.
Os coelhos se reproduzindo descontroladamente em Robben Island já era algo ruim o suficiente; liberar os férteis bichinhos para se multiplicarem por todo o país poderia ser um desastre.
Em vez disso, foram preparadas armadilhas para capturar os coelhos e matá-los sem dor - uma injeção letal era preferível em relação a um pelotão de fuzilamento.
No entanto, os coelhos se mostraram difíceis de serem pegos nos números necessários.
Pior, quando os animais eram "colocados para dormir", suas caras aterrorizadas e corpos estremecidos transformavam a agulha em algo menos misericordioso do que a bala.
Houve pouca resistência organizada contra a caçada, embora vários ativistas dos direitos dos animais estejam chocados, argumentando que essas mortes lembram o espírito do apartheid: os coelhos estão sendo considerados tão inferiores que não são dignos de viver.
"Robben Island é quase um lugar sagrado.
Transformá-lo num campo de extermínio é tão inadequado, tão escandaloso, sujo, imoral", disse Cicely Blumberg, defensora dos direitos dos animais que já se ofereceu para encontrar lares para os coelhos.
Para as mortes aparentarem ser menos cruéis, a administração da ilha recentemente anunciou que a carne dos animais seria doada aos pobres.
Porém, embora a África do Sul tenha muitíssimos necessitados, poucos parecem acostumados ao gosto da carne de coelho.
Por ora, a carne permanece numa câmara de congelamento no matadouro da ilha.
Os indesejados coelhos de Robben Island provavelmente serão inseridos de novo na cadeia alimentar nas reservas de chitas do país.
Tradução: Gabriela d'Avila © 2010 New York Times News Service
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